Alexsom

Alexsom

GLASTONBURY 2017

CALENDAR JAZZ

MONTREUX ACADEMY 2017

Colour Me Free! - Joss Stone

Amy Winehouse Foundation

PLAYING FOR CHANGE

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Daft Punk se reinventa em álbum nostálgico com boas parcerias Duo francês troca som robótico por músicos de carne e osso; leia crítica. 'Random access memories' bate recordes de vendas e lidera na 'Billboard'.

Erick Brêtas Da TV Globo, no Rio
Capa de 'Random Access Memories', novo álbum da dupla Daft Punk (Foto: Divulgação)
Capa de 'Random Access Memories', do Daft Punk
(Foto: Divulgação)
Leio aqui e ali que o novo álbum do Daft Punk, “Random access memories” ("RAM"), bate recordes de vendas na França e no Reino Unido e alcança um feito espetacular para artistas considerados “de música eletrônica”: o primeiro lugar na “Billboard” americana. No serviço de streaming Spotify, baseado na Suécia, já foi ouvido por oito milhões de usuários. E há mais além dos números. Faz muito tempo que o lançamento de um disco não gera tanta expectativa – não me lembro de nada parecido desde que o Radiohead desconcertou a indústria fonográfica com “In rainbows”, álbum que vendeu diretamente aos fãs, pelo preço que estes quisessem pagar.
As razões para o buzz desta vez são diferentes – as cartas estão na mesa, as vendas em formato digital são regra, não há nada de novo no front comercial. Para completar, numa jogada de antimarketing, o lançamento mundial do esperadíssimo disco foi numa feira agrícola de uma cidadezinha rural da Austrália, o revés do glamour. É como se Thomas Bangalter e Guy Manuel de Homem-Christo dissessem aos fãs e ao mercado: “O que importa é a música”.

RAM" chega oito anos depois do já distante "Human after all". É resultado de cinco anos de pesquisas interrompidos apenas pela encomenda da trilha sonora de "Tron, o legado". E, vamos logo estragar esse texto com um adjetivo, é fabuloso. Se, como eu, você começou a se interessar por Daft Punk ao ouvir “One more time” ou “Around the world”, talvez estranhe "RAM" na primeira audição. Não se trata de um disco dançante em estado bruto. Para funcionar nas pistas, deverá ser anabolizado por remixes e bootlegs. Mas suas 13 faixas são resultado de uma artesania sonora incomum nesse espectro da música, dominado pela "Geração Pro-Tools". Em excelente reportagem do "New York Times" sobre o lançamento de "RAM", Bangalter critica as ferramentas digitais de produção musical por terem criado "um cenário que é muito uniforme". Crítica ou autocrítica? Pois o Daft Punk é o encontro de dois nerds que há mais de 20 anos, ainda adolescentes, começaram a fazer música em casa com sintetizadores e computadores (assim como Moby, por exemplo). Seu primeiro sucesso, “Da funk” (faixa de “Homework”, 1997) é a repetição ad nauseam de um diálogo entre sintetizadores e um surdo digital, quase um manifesto dos robôs que escondem as identidades de Bangalter e Homem-Christo.            
O duo francês Daft Punk (Foto:  Matt Sayles/AP)
O duo francês Daft Punk (Foto: Matt Sayles/AP)

Mas, ainda bem, o Daft Punk não passou 20 anos tentando prolongar a mágica de seus primeiros hits. Neste novo disco você ouvirá orquestras, sopros e cordas em abundância. Guitarras em riffs de disco-funk, no melhor estilo Donna Summer. Tudo feito em muitas horas de estúdio a custos milionários, com músicos de carne e osso. E eis aí um grande mérito do disco – promover parcerias com gente de talento, que produz, toca e canta ao longo dos 80 minutos de "Random access memories". Um deles é o produtor Pharrel Williams, astro do R&B americano, que faz duas participações luminosas em "Lose yourself to dance" e "Get lucky". Ambas poderiam confundir aquela sua tia que dançava ao som dos Bee Gees na juventude. São pérolas extemporâneas da disco music – e não fosse pelo chamado discreto dos robôs em "Lose yourself to dance" ("C´mon, C´mon, c´mon..."), seria impossível reconhecê-las como canções do nosso tempo.
             
O tom de nostalgia está presente não apenas na inclinação setentista de algumas faixas. A passagem do tempo é um tema que se repete várias vezes – nas letras e nos temas. "Giorgio by Moroder" é um tributo-entrevista com o legendário produtor Giorgio Moroder, responsável por sucessos como "I feel love", de Donna Summer, e ele próprio um dos primeiros a levar sintetizadores para a música dançante. Ao repórter Dorian Lynskey, do "Observer", Moroder contou que não fazia ideia de como suas muitas horas de conversas gravadas com "os meninos" seriam aproveitadas. "Eu sabia que eles não me contariam." Em "Touch" memórias são também evocadas na voz do ator, músico e compositor de trilhas Paul Williams, um ídolo de infância de Bangalter. Williams contribui em um aspecto que nunca esteve entre as preocupações do Daft Punk ou de seus fãs: letras ricas em poesia. Além de "Touch", ele escreveu também "Beyond", que traz o verso-síntese de "RAM", se me permitem cometer a tradução: "A música perfeita é emoldurada pelo silêncio".
             
Ao interromper um longo hiato com uma obra tão ambiciosa, o Daft Punk deixa dúvidas sobre o futuro. Haverá uma turnê de "Random access memories"? O ritmo de produção do duo seguirá tão bissexto? A quem pergunta, Bangalter e Homem-Christo dão respostas lacônicas, como convém à aura dos homens-robôs. "Isto é o que temos para dividir com vocês."
Fonte:G1 Musica

0 comentários: