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sexta-feira, 10 de maio de 2013

Ed Motta diz que vive no passado e fala sobre Psy: 'Não sei o que é' 'Mania agora é de 1977 até 1983', diz Ed, que elogia Bieber: 'Superbom'. Em entrevista ao G1, cantor e compositor comenta novo disco, 'AOR'.


Cauê Muraro Do G1, em São Paulo
O cantor Ed Motta posa no Rio de Janeiro (Foto: Daryan Dornelles/Divulgação)
O cantor Ed Motta posa no Rio de Janeiro (Foto: Daryan Dornelles/Divulgação)

Ed Motta jura pela própria mãe ao dizer que não conhece Psy, o sul-coreano que canta (e dança) o hit “Gangnam style”. Em entrevista ao G1 por telefone para tratar de seu novo disco, “AOR”, o cantor e compositor carioca de 41 anos de idade justifica: “Sempre ‘vivi’ nos anos 1960, até 1975. Aí, a mania agora é ficar de 1977 até 1983. Eu estou lá, vejo as revistas daquela época. Não sei de absolutamente nada do que acontece hoje”.
Mas ele sabe e se lembra do que aconteceu em maio de 2011, quando se viu alvo de polêmica ao usar o Facebook para expressar críticas a músicos como Paula Toller, Caetano Veloso e Daniela Mercury. Ed Motta se reconhece arrependido da controvérsia. Não pelo conteúdo das avaliações, mas pela exposição de opiniões. Diz que shows foram cancelados. “Não é bom ficar de paladino da justiça, da verdade, da música, da cultura e não sei o quê.” Na nona música de “AOR”, “A engrenagem”, ele canta: “Não foi nada de mais/ Repetia tudo sem ter medo/ Ficou tarde, eu sei, pra rir outra vez/ Foi estranho demais, porque essa vez, fui covarde, eu sei”. Perguntado se são versos de amor ou uma espécie de resposta ao episódio de dois anos atrás, o autor se esquiva, rindo: “Ah, isso aí eu deixo para a imaginação de cada um”.

O nome do disco, explica Ed Motta, é sigla para “Album Oriented Rock” ou “Adult Oriented Rock”. No release do trabalho, ele escreve que se trata de “um termo norte‐americano inventado nas rádios nos anos 70”. Resume como “música pop de grande excelência técnica” e fornece exemplos brasileiros: Rita Lee, Guilherme Arantes, Roupa Nova, Zizi Possi, Biafra, Radio Taxi. Rita Lee inclusive fez a letra do primeiro single, “S.O.S. amor”.
Na entrevista, no entanto, Ed Motta enumera bandas que não são exatamente associadas à "técnica perfeita" e diz gostar delas – destaca o grupo punk Sex Pistols. A conversa chega ainda a Justin Bieber, e este ele conhece. Conta que gostou de um show que viu pela TV. “Tecnicamente, estava perfeito: a banda top, ele cantando direitinho, tudo certo. Everything was right, tava tudo perfetc (risos).” Leia a seguir os principais trechos.
Não escuto só coisas que são tecnicamente perfeitas, longe disso. Os exemplos são muitos. Adoro Small Faces, Roxy Music, são tantas coisas. Teria que ficar horas falando. Iggy Pop, Stooges! Não preciso nem ir muito longe. O próprio disco do Sex Pistols, o “Never mind the bollocks” [de 1977], aquele disco é bom!"
Ed Motta, cantor e compositor
G1 – No texto do release do disco você escreve: ‘No AOR, o tecnicamente perfeito é virtude’. Tem alguma banda que não seja tecnicamente perfeita e que, mesmo assim, você escuta?
Ed Motta –
Milhares. Poxa, “trocentas” de milhares. Na verdade, antes de fazer música, sempre fui um colecionador de discos. Não escuto só coisas que são tecnicamente perfeitas, longe disso. Os exemplos são muitos. Adoro – adoro mesmo, de ter disco, coleções completas – Small Faces, Roxy Music, são tantas coisas. Teria que ficar horas falando. Iggy Pop, Stooges! Não preciso nem ir muito longe. O próprio disco do Sex Pistols, o “Never mind the bollocks” [de 1977], aquele disco é bom! Até porque o guitarrista é o Chris Speeding (risos). Ninguém sabe dessa história, mas foi ele, um lendário guitarrista inglês de sessão [de estúdio], que gravou as coisas todas. Mas gosto de ouvir coisas tecnicamente perfeitas – e principalmente de ouvir coisas que, tecnicamente, estão acima de minha capacidade. Isso tem um poder instigante, de aprender, e perguntar como se faz e tal.
G1 – O ‘AOR’ é uma espécie de rótulo. Que tipo de rótulo incomodaria você?
Ed Motta –
Música ruim (risos).
G1 – Tem uma música no ‘AOR’, ‘A engrenagem’, em que você fala ‘não foi nada de mais’, que ‘não erra jamais’. É uma canção de amor ou uma resposta aos episódios de 2011, quando houve as polêmicas dos seus posts no Facebook?
Ed Motta –
Ah, isso aí eu deixo para a imaginação de cada um (risos).
G1 – Você se arrepende daquilo?
Ed Motta –
Ah, sim. Isso aí é chato, um negócio ruim. Eu me arrependo, claro, não foi nada legal, não foi bom para mim em nenhum aspecto. Errou, vacilou, é isso.
G1 – Você se se arrepende do conteúdo ou da falta de cuidado ao expor a opinião?
Ed Motta –
Acho que pela falta de cuidado em expor a opinião, óbvio. Pelo conteúdo... O que penso sobre aqueles artistas, esteticamente, continuo achando – vou morrer achando (risos). Eu nunca, nunca, nunca ataquei o indivíduo. Jamais. Sempre critico a situação, um grupo, uma coisa. Quando critico um indivíduo, é o gringo. Posso falar do Arctic Monkeys, os caras estão lá com a vida ganha, são gringos, entendeu? A gente fala mesmo, e não faz diferença nenhuma. Mas os colegas daqui, as pessoas com quem você volta e meia acaba esbarrando num aeroporto, sei lá, não é legal [criticá-los]. Não é bom ficar de paladino da justiça, da verdade, da música, da cultura e não sei o quê. Isso tá por fora.
O que penso sobre aqueles artistas, esteticamente, continuo achando – vou morrer achando (risos). Eu nunca, nunca, nunca ataquei o indivíduo. Jamais. Sempre critico a situação, um grupo, uma coisa."
Ed Motta, cantor e compositor
G1 – Você sente que sofreu algum prejuízo? Se sim, foi algo pessoal – de alguém reclamar com você – ou a sua reputação saiu arranhada?
Ed Motta –
De reputação, não teve [prejuízo]. O que teve foi problema com shows. Lembro de que, nos primeiros 15 dias, cancelaram shows.
G1 – Alegadamente por conta das críticas a outros artistas?
Ed Motta –
Ah não, mas você percebe que foi, né? Não foram todos, cancelaram alguns. Logo depois, tudo voltou ao normal.
G1 – Nenhum artista criticado tirou satisfação?
Ed Motta –
Não... Porque não tenho relacionamento com ninguém (risos). Graças a Deus (risos), não tenho contato. É uma maravilha. O que falta, sério mesmo, é um pouco de Paul Weller para a turma aí. Quando você vê as entrevistas do Paul Weller [veterano guitarrista britânico, do grupo The Jam], meu Deus do céu, pinga sangue do negócio, bicho! Pinga sangue. A última entrevista dele na [revista] “Uncut”, é um negócio, rapaz... Ele falando de tudo, do David Bowie, do Paul McCartney, de não sei quem. Os caras fazem uma lista, e ele vem só atirando. Os caras sabem da genialidade do Paul Weller, ele fala porque é neurótico – aquilo é da pessoa, não adianta. É tipo uma doença do cara, que fala e o cacete. Tipo uma agonia. Vide o que aconteceu aí com o Gerald Thomas. Todo mundo foi extremamente condescendente com o Gerald Thomas, achando que ele foi o Johnny Rotten [vocalista do Sex Pistols]. E eu fui um fucking asshole [babaca] porque falei de meia dúzia de imbecis. Então é F., tem que ter paciência com o terceiro mundo (risos).
G1 – O que você pensa dos fenômenos pop atuais? Do Psy, por exemplo.
Ed Motta –
O quê?
G1 – O Psy, o sul-coreano que canta ‘Gangnam style’, com aquela dança.
Ed Motta –
Rapaz... Eu juro pela minha mãe que não sei o que é. Vou te contar um troço. A internet tem esse perigo, né? Ela te coloca exatamente onde você quer. Sempre vivi nos anos 1960, até 1975. Aí, a mania agora é ficar de 1977 até 1983. Eu estou lá, vejo as revistas daquela época. Não sei de absolutamente nada do que acontece hoje. Só sei quando a coisa chega a mim. Ouvi um cara chamado Lucas Arruda, do Espírito Santo, que me animou muito. Para mim, é a grande promessa da música deste ano. A meu ver, esse cara vai salvar a imagem medíocre da música pop atual que é exportada do Brasil para a Europa. A imagem é de que somos todos uns analfabetos musicais – e nós não somos.
Outro dia, vi na TV um show do Justin Bieber, estava bom pra cacete (risos). Maravilhoso, superbom. Tecnicamente, estava perfeito: a banda top, ele cantando direitinho, tudo certo."
Ed Motta, cantor e compositor
G1 – Mas então você está desvinculado dos grandes fenômenos do pop?
Ed Motta –
Sei esses nomes, Justin Bieber... Outro dia, vi na TV um show do Justin Bieber, estava bom pra cacete (risos). Maravilhoso, superbom. Tecnicamente, estava perfeito: a banda top, ele cantando direitinho, tudo certo. Everything was right, tava tudo perfect (risos).
G1 – O ganhador do Nobel de literatura Mario Vargas Llosa fala que a cultura está abandonada, que já não é a mesma que era no passado. Você pensa assim também?
Ed Motta –
Teoricamente, essa cultura estaria sendo abandonada. A música pop brasileira passa por um período simplista, desde muito tempo já. Não se pode dizer que é a música brasileira – é só a música pop brasileira. Porque milhares de discos de música brasileira tradicional, MPB, continuam sendo feitos com pessoas trabalhando complexamente, blablablá.
G1 – No release do disco, você cita alguns artistas nacionais com os quais você se identifica pelo estilo AOR, como Guilherme Arantes, Roupa Nova e Biafra. Esses dois últimos não são muito associados à sofisticação – às vezes, é até o contrário. Acredita que a obra deles merece uma revisão?
Ed Motta –
Acho que sim. Eu me lembro até de que, quando eu vi o comercial de TV com o Biafra, fiquei chateado (risos). E ele mesmo não ficou (risos). Eu não gostava, mas deve ter sido bom para ele. Essas pessoas, principalmente o Roupa Nova, têm um público gigantesco, vende disco pra caramba, faz show. O que não tem é um aval da intelligentsia. Aquela intelligentsia que ouve “London calling”, do Clash, não vai entender o que tem de excelente, tecnicamente, na música desses caras. É algo distante. Os caras são supermúsicos de estúdio.
G1 – Os mais jovens ouvem música enquanto estão fazendo outras coisas, talvez não percebam detalhes técnicos do seu disco. Isso incomoda você?
Ed Motta –
Para mim, tem uma coisa que é o seguinte. Lembro de uma frase do grande cineasta Billy Wilder: “Se alguém entrar no cinema e notar a fotografia do meu filme, eu errei”. Ele pensava isso, que não tinha conseguido entreter a pessoa a ponto de ela não analisar o negócio. Não chego a ser tão radical quanto ele, porque gosto de dissecar. Mas seria gratificante para mim se a pessoa escutasse exatamente como você descreveu. Se tem uma pessoa cortando a unha e ouvindo a música – maravilha.
G1 – Por falar nisso, ‘A engrenagem’ tem uma melodia de piano que lembra trilha sonora, música de fundo, como as de seriados de TV dos anos 1980. Concorda?
Ed Motta –
Isso, total. Esses elementos vão aparecendo de propósito. Essa coisa meio série de TV dos anos 1980, meio “Magnum”, “Miami Vice”, aquele sapato branco, sem meia (risos). Eu adoro aquilo! Sou louco pelo Magnum há muitos anos, tipo obcecado, pela trilha e não sei o quê. É engraçado, porque adoro cinema de arte, David Lynch, e sou fã de “Magnum” (risos). Tem uma história que é famosa, o [cineasta francês] Godard tem a coleção completa do “Dallas”, que ele achava a coisa mais F. da TV ever! E é um cineasta, intelectual, tudo mais. 
Não é à toa, acabei me casando com uma mulher nove anos mais velha do que eu. Eu tinha 18 anos [na época do casamento]. A diferença é que eu, com aquela idade, era um velho de 50 (risos). Eu não gostava das coisas [típicas] de quem tem 18 anos, não pensava como 18 anos."
Autor
G1 – Em entrevista ao jornal ‘O Globo’, você disse que nunca quis ser jovem. Isso lembra o conselho atribuído ao Nelson Rodrigues: ‘Jovens, envelheçam’.
Ed Motta –
Brilhante, né? Sensacional. Eu amo essa frase desde que eu tinha 15, 16 anos. Nunca tive muita relação com as coisas da minha época, da minha idade.
G1 – Isso vale só para a música? Ou para outros aspectos da sua vida também?
Ed Motta –
A minha vida é só música, o dia inteiro. Minha vida não existe – eu não tenho uma outra vida fora da música. Não é à toa, acabei me casando com uma mulher nove anos mais velha do que eu. Eu tinha 18 anos [na época do casamento]. A diferença é que eu, com aquela idade, era um velho de 50 (risos). Eu não gostava das coisas [típicas] de quem tem 18 anos, não pensava como 18 anos. Tinha a inexperiência, claro – que talvez eu tenha até hoje (risos). Mas eu não tinha colegas da mesma idade, não estava ligado naquilo.
O cantor e compositor Ed Motta (Foto: Daryan Dornelles/Divulgação)
O cantor e compositor Ed Motta (Foto: Daryan Dornelles/Divulgação)
Fonte:G1 Musica

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