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terça-feira, 3 de julho de 2012

A música virou artesanato; ainda bem! Por Roberto Maia


Passei grande parte da minha vida dedicando-me à música em todas as suas formas: da criação à expressão; com uma dose de empirismo e outra grande dose de academicismo, o que me deixa a vontade para não merecer o título de um músico frustrado que divaga ressentimentos sobre música dos outros. De produtor a divulgador, ouvi toda sorte de absurdos e coerências que a minha formação de comunicador pôde apreciar com a distância semiótica necessária. Se esta introdução parece hermética ou fugaz, o sentido é só resumir que sob minha ótica, vivemos no melhor de todos os mundos da realidade musical. Nunca foi tão fácil produzir, gravar e distribuir música; some a isto, ainda, a facilidade de ter um instrumento e um lugar para ensaiar.

Mas o fato dessas facilidades criar a imobilidade é outro problema; sempre afirmei que não há nada mais apavorante em escrever uma redação quando o título é “Tema Livre”. O que acontece hoje é simplesmente isso: ter “meio”, e não ter “mensagem”. Procurado por centenas de bandas, raramente fui surpreendido e mais raramente ainda respondido quando fazia a simples questão: “Qual sua intenção?”.
Impossível começar algo sem atitude ou coragem; na minha adolescência, fiquei na dúvida entre o visual e o sonoro, ou seja, amava fotografia e fui estudar muito sobre o assunto, até que um dia um professor definiu: “Fotografar é ter coragem!”. Isso me fez ver que não há nada mais direto do que você “roubar” a imagem de algo de uma forma tão explícita e no mundo onde praticamente todo mundo tem uma câmera na mão, quantos têm ideias na cabeça? Será que temos a noção do nosso poder atual de produção?
Voltando à música, que acabou sendo meu caminho, ainda que tortuoso, durante os últimos 40 anos, tenho visto surgir selos cada vez mais interessantes e com produções que beiram o artesanal, tudo emocionante e maravilhoso; surgem sites musicais interessantíssimos, surgem lugares para tocar, inúmeras bandas, rádios online, enfim toda sorte de meios, com um único defeito: pouca interação entre si; não digo algo do tipo “brodagem” (abominável palavra), que no Brasil é um sinônimo para definir a subserviência entre os membros do mesmo “clubinho”; discordar é preciso, assim como criticar, portanto, o que falta aqui é a chamada ”cena”. O segredo da Internet foi criar um protocolo que permitiu os mais diversos tipos de computadores falarem entre si, mas aqui os pares não falam entre si, competem migalhas; triste realidade, enquanto os estabelecidos propagam sua estética pobre e vazia.
 Esta busca por uma “cena”, essa valorização do esforço individual para que ele se torne um caminho de um coletivo vai ser o nosso caminho aqui nesta coluna. Vamos falar, um pouco, sobre esses novos heróis cheios da palavra que falta na maioria do meio musical atual: “atitude”; algo que se tem ou não, que não se compra , não se finge, não está nos adereços, está na alma…
Por Roberto Maia às 10h32

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