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terça-feira, 8 de maio de 2012

Há 60 anos, Kitty Wells abria portas da música country para mulheres; conheça a história

The New York Times
Gayden Wren*
The New York Times Sindycate
  • A cantora country Kitty Wells na abertura da exposição Kitty Wells: Queen of Country Music, no Country Music Hall of Fame, em Nashville (2008) A cantora country Kitty Wells na abertura da exposição "Kitty Wells: Queen of Country Music", no Country Music Hall of Fame, em Nashville (2008)
Nesta era de Faith Hill, Miranda Lambert, Taylor Swift e Carrie Underwood, é difícil acreditar que houve um tempo em que as mulheres não tinham espaço na música country. Ou que as paradas comerciais careciam de estrelas e, de fato, a própria ideia de uma cantora country parecia estranha, até mesmo suspeita. Mas era assim. E tudo chegou ao fim 60 anos atrás, em 3 de maio de 1952, em um pequeno estúdio em Nashville.
 
Naquele dia, como em todos os dias anteriores, a canção country no primeiro lugar das paradas era de um cantor: "The Wild Side of Life", de Hank Thompson. Com letras de Arlie Carter e William Warren em uma velha melodia country, a faixa tinha o tom misógino típico das canções da época. Ela era cantada por um marido traído que culpava os modos selvagens de sua ex pelo fim do casamento. Como proclamava seu refrão:
 
"Eu não sabia que Deus tinha feito anjos de boteco,
Eu deveria saber que você nunca daria uma boa esposa
Você abandonou o único que já amou você
e voltou para o lado selvagem da vida"
 
Lançada em março de 1952, ela foi um enorme sucesso, ocupando o primeiro lugar na parada country da Billboard por mais de três meses. A música foi popular o suficiente para inspirar o compositor J.D. Miller a escrever uma "canção-resposta" à faixa original, com a mesma melodia. 
 
A canção-resposta era um gênero popular na época e, apesar de raramente fazerem sucesso, elas ainda assim davam lucro. Qualquer canção de sucesso como "The Wild Side of Life" poderia esperar o surgimento de uma ou duas canções-resposta como tributo ao seu apelo popular.
 
A canção de Miller era típica, mas apresentava um problema: como a canção original foi escrita por um homem para uma mulher, a canção-resposta exigia que uma mulher a cantasse. E em Nashville, em 1952, solistas femininas eram escassas.
 
Era permitido que mulheres cantassem, é claro. Elas podiam cantar em grupos familiares, como Sara Carter era cantora principal da famosa Carter Family, desde os anos 1920, ou em dupla com seus maridos. Elas podiam trabalhar como vocalistas de orquestras, como Patsy Montana com os Prairie Ramblers, quando vendeu mais de um milhão de cópias de "I Want to Be a Cowboy's Sweetheart" (1935).
 
O que uma mulher não podia ser era uma artista solo. A vida de um artista country envolvia turnês constantes, o que não era considerado apropriado para uma dama. Os bares e boates nos quais os cantores trabalhavam eram considerados impróprios para qualquer mulher de respeito. 
 
Qualquer mulher nesses lugares era considerada uma "honky-tonk angel" (em tradução livre, anjo de boteco), uma mulher de pouca virtude que ficava nesses locais à procura de homens, dinheiro e/ou bebida. Portanto, era certo que a canção-resposta de Miller, "It Wasn't God Who Made Honky-Tonk Angels", seria cantada por uma desconhecida, porque não havia nenhuma cantora famosa.

A então desconhecida Kitty Wells
Miller levou sua "It Wasn't God Who Made Honky-Tonk Angels" para Paul Cohen, que, como chefe da divisão de música country da Decca Records e seu principal produtor, era um dos homens mais poderosos em Nashville. Cohen gostou da canção e a viu como uma chance de ganhar dinheiro fácil, se pudesse ser gravada e lançada enquanto "The Wild Side of Life" ainda estava nas paradas. Foi Cohen que pensou em uma possível cantora, a então desconhecida Kitty Wells.
 
Nascida Ellen Muriel Deason, Kitty Wells tinha 32 anos na época e, como ela mesmo disse, já estava cansada do meio musical e pronta para se aposentar e se dedicar à sua família. Seduzida pela música desde pequena, ela tentava encontrar um espaço no meio desde a adolescência, primeiro como parte do grupo familiar Deason Sisters e depois, após se casar com o cantor Johnnie Wright quando tinha apenas 18 anos, como cantora de apoio dele.
 
Nos velhos tempos a música country era voltada para os homens --canções de caminhoneiro, de mulheres fáceis, de traição. Eu me recordo de quanto fiquei empolgada em 1952, na primeira vez em que ouvi Kitty Wells cantar "It Wasn't God Who Made Honky-Tonk Angels"
Loretta Lynn em seu livro "Coal Miner's Daughter"
Em 1939, Wright se uniu ao cantor Jack Anglin para formar uma dupla de sucesso, Johnnie & Jack, mas Kitty Wells não conseguiu se livrar de seu papel de apoio. Em 1949 e 1950, provavelmente como um favor aos populares Johnnie & Jack, a gravadora deles, a RCA, permitiu que Wells gravasse dois singles como cantora solo, mas a distribuição não foi boa e eles não venderam. A RCA a descartou em 1950.
 
Um promotor enérgico da carreira de sua mulher, Wright enviou uma demo do trabalho dela para Cohen, e foi assim --e, talvez, a ideia de algum dia atrair Johnnie & Jack para a Decca-- que levou Cohen a convidar Wells para gravar "It Wasn't God Who Made Honky-Tonk Angels".
 
Nenhuma das pessoas reunidas no pequeno Castle Studio, no Tulane Hotel de Nashville em 3 de maio, esperava algo da canção. Segundo seu próprio relato, Kitty Wells aceitou o trabalho apenas pelo pagamento tabelado pelo sindicato, US$ 125, que receberia. A banda de apoio --Anglin na violão, Wright no contrabaixo, Shot Jackson na guitarra havaiana e Paul Warren no violino-- estava lá como um favor para Wells. 
 
Cohen nem estava presente: não considerado um projeto de alta prioridade, então ele deixou a produção aos cuidados de seu assistente, Owen Bradley, um pianista talentoso sem nenhuma experiência em produção. A sessão transcorreu bem, mas não mudou a ideia de ninguém. 
 
Segundo Wells, ela descontou seu cheque e não pensou mais na canção até julho, quando recebeu um telefonema de sua amiga, Audrey Williams, que estava em turnê com seu marido, Hank Williams. "Garota, você tem um sucesso", Audrey lhe disse. "Ele está tocando em toda parte!"
 
Ela estava certa. Cohen tomou um susto quando os números de vendas começaram a aparecer. Apesar do tema "picante" da canção ter feito a música ser banida de vários programas de rádio, incluindo a rede NBC e do "The Grande Ole Opry", a faixa "It Wasn't God Who Made Honky-Tonk Angels" subiu na parada Billboard, tomando o primeiro lugar de "The Wild Side of Life" e o mantendo por seis semanas, além de chegar às paradas gerais.
 
A canção estava sendo comprada principalmente pelas mulheres, com seu apelo claramente enraizado na refutação protofeminista da velha misoginia da música country. A letra de Miller, cantada por Wells de modo simples e direto, volta a acusação aos homens:
 
"Não foi Deus que fez os anjos de boteco
como você disse em sua canção
Homens casados muitas vezes acham que ainda são solteiros
Isso faz muitas boas garotas perderem o caminho"
 
Isso dificilmente seria motivo para controvérsia hoje em dia, mas em 1952 era arriscado, tanto por sua franqueza quanto por sua clara simpatia pelo ponto de vista feminino. Por todo o Sul e além, as mulheres responderam. Criando quatro filhos no Estado de Washington, a então desconhecida Loretta Lynn foi uma das muitas pessoas que reconheceram a canção como algo novo.
 
"A maioria das minhas canções era do ponto de vista da mulher", escreveu Lynn em seu livro "Coal Miner's Daughter" (Regnery, 1976). "Nos velhos tempos a música country era voltada para os homens --canções de caminhoneiro, de mulheres fáceis, de traição. Eu me recordo de quanto fiquei empolgada em 1952, na primeira vez em que ouvi Kitty Wells cantar 'It Wasn't God Who Made Honky-Tonk Angels' (...) Kitty estava apresentando o ponto de vista da mulher, que é diferente do ponto de visto do homem. E eu sempre me lembrava disso quando começava a compor".
 
Revolução na música country
"It Wasn't God Who Made Honky-Tonk Angels" vendeu mais de 1 milhão de cópias e revolucionou Nashville. Não apenas Kitty Wells se tornou, quase da noite para o dia, uma das maiores estrelas da música country --ela emplacaria outros três singles em primeiro lugar e dezenas de outros nas paradas, se transformando em uma das maiores atrações do circuito de shows nos 1930 anos seguintes-- como também Bradley foi lançado em uma carreira que talvez o tenha transformado no produtor mais influente da música country do final do século 20. Ele sucedeu Cohen no comando da Decca em 1958, ocupando o cargo pelo quarto de século seguinte e sendo o pioneiro do chamado "som de Nashville".
 
A canção também deu início a uma caça a talentos, com todos os selos de Nashville à procura de sua própria Kitty Wells. A Decca se tornou particularmente conhecida pelo seu rol de estrelas, com Bradley conduzindo Wells, Patsy Cline, Lynn e Brenda Lee ao topo das paradas. No início dos anos 1960, a música country era um clube misto e, 30 anos depois, pelo menos metade de seus artistas mais importantes é do sexo feminino.
 
Elas também sabem de onde vieram. Foram gravados dezenas de covers da canção --mais notadamente, talvez, por Lynn, Dolly Parton e Tammy Wynette no álbum do trio "Honky-Tonk Angels" (1994), que contou com participação especial de Kitty Wells. Em 2008, o Registro Nacional de Gravações da Biblioteca do Congresso adicionou "It Wasn't God Who Made Honky-Tonk Angels" às gravações historicamente mais importantes do país.
 
Mas talvez o melhor tributo tenha vindo do cantor e compositor Tom T. Hall, que juntamente com sua esposa, Dixie Hall, compôs a canção "Kitty Wells Started It All":
 
"Não foi Deus que fez os anjos de boteco
pois para as cantoras country não havia muito lugar
Até os anos 50 nós, rapazes, é que cantávamos
até que Kitty Wells deu início a tudo"
 
Foi um dos muitos reconhecimentos do impacto duradouro de uma canção que não parecia muita coisa em 3 de maio de 1952, mas se tornou uma das canções country mais importantes já gravadas. (Tradução: George El Khouri Andolfato)
Fonte:uol
 
*Gayden Wren, editor de entretenimento do "The New York Times Syndicate", é autor do futuro livro "Honky-Tonk Classics: Ten Songs that Made Country Music"

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