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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Amy e sua abelhas

  • Montagem
Olhando as fotos do encarte de "Frank", primeiro disco de Amy Jade Winehouse, é difícil acreditar que seja a mesma pessoa que morreu cinco meses atrás, num fatídico dia 23, aos 27 anos. Em 2003 seu cabelo escorria ao lado do rosto simpático, meio bochechudo até, e pousava nos ombros. A imagem era de uma colegial esperta, de beleza simples, pronta para descobrir o mundo e, “em troca” ser descoberta por ele. Os olhos felinos, o nariz russo-judaico e a boca carnuda já estavam lá, mas mal deixavam entrever a personalidade sexy, explosiva e autodestrutiva que, três anos depois, gravaria o megahit "Back to Black", disco mais vendido na Inglaterra neste século, vencedor de seis Grammy.

A transformação começou de cima, com o volumoso penteado "beehive" (colmeia), copiado das cantoras dos anos 60. O rosto, já um pouco sugado pelo abuso de álcool e drogas, passou a exibir olhos de Cleópatra, ilusoriamente repuxados nos cantos, pelo traço sensual do lápis. Ronnie Spector, a lendária cantora das Ronnettes, um dos melhores girl groups de todos os tempos, chegou a pensar que estava vendo a si mesma quando se deparou com uma foto de Amy repaginada.

Do pescoço para baixo, o corpo exibia roupas e curvas de pin-up, mas de um jeito quase desengonçado: peitos avantajados se projetavam sobre uma cintura tão fina quanto as pernas, que passaram a se embaralhar nelas mesmas, em várias apresentações regidas pelo espírito etílico.

Relembre a trajetória curta e intensa de Amy Winehouse


O som, antes uma mistura mais que correta de jazz e pop com boas letras, que ousavam um pouco além da linha dos clichês (como a ótima "Stronger than Me"), ganha o peso e balanço soul dos Dap-Kings, a grande banda de apoio de Sharon Jones (para muitos, a matriz de seu estilo rasgado, ao mesmo tempo lírico e sarcástico). As letras continuam provocativas, como na sua música mais famosa, "Rehab". Mas, olhando em retrospecto, algo nessa inocência perdida já apontava para um final infeliz. No turbilhão que se seguiu, houve até quem fizesse uma escultura sua sobre uma poça de sangue e um furo de bala na cabeça (triste pensar como esse tributo de péssimo gosto tenha sido premonitório).

Dois discos excelentes, duas pessoas diferentes. Saiu o frescor de debutante, entrou o equilíbrio delicado entre um carisma poderoso e o desespero de quem sabe que está se afundando. Em comum, a voz incomum, anasalada, flexível, malandra, sedutora, uma das melhores vozes do jazz-pop de todos os tempos, segundo Tony Bennett, último a gravar com ela. Quem a ouvisse pela primeira vez logo repararia que tinha muito ritmo, bom gosto (R&B, soul e jazz dos anos 60) e talento para compor, algo que fazia desde que pegou a guitarra do irmão mais velho aos onze, doze anos.
Mas a colmeia na cabeça se revelou muito pesada: um bolo de noiva celebrando um malfadado casamento com a fama. Sem conseguir conciliar os mil compromissos que o sucesso estrondoso requeria e as exigências pouco ortodoxas de sua vida particular, foi perdendo o controle sobre suas “abelhas”. O alto volume sobre a testa, verdadeira escultura capilar, começou a oscilar, tirando-lhe o já difícil equilíbrio. Sucederam-se casos de violência contra fãs e papparazzi, pelo menos uma overdose de ecstasy, cocaína, heroína, ketamina e álcool, um marido insignificante, codependente de drogas e presidiário (por um tempo) e last, but not least, pais papagaio-de-pirata, que volta e meia apareciam para dar entrevistas que só tornavam o quadro ainda mais patético, alimentando a curiosidade voluntária ou  involuntariamente mórbida de seus fãs e de certa imprensa predadora.
Meses antes de morrer, veio ao Brasil e deu o show que as más línguas esperavam, repetindo o que já vinha acontecendo em outros palcos pelo planeta. Atordoada pela autoexigência e pela exigência dos outros, e abençoada pelo velho Baco, parecia caminhar num navio em plena tempestade. Ao cantar, sugeria um misto estranho de amor pela música, energia raivosa e incapacidade física. Em alguns momentos, brilhava seu talento inegável, para alívio dos que tentavam fechar os olhos aos efeitos colaterais da fama abrupta e só queriam mesmo ouvi-la escalar cada nota com todo o sal de seu charme debochado.

Morta, deixa várias herdeiras (Adele, Duffy, Lady Gaga e outras tantas), o esboço de um projeto muito promissor com o batera do The Roots, Questlove, e mais um disco para a coleção, com sobras de estúdio, o (oportunista, mas também bom) "Lioness: Hidden Treasures". Podia ter ido bem mais longe. Fica a colmeia, ficam as abelhas.
Fonte:UOL

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